Caminhada

Author: Hugo Torres / Etiquetas:



Nascia o sol
E já estava ele vagueando
Pelas ruas do pensamento,
Pelas ruas do mundo.


Deambulava com um sorriso subtil
Por estreitas e largas ruas
Sobre relva e pedras nuas
Apreciando tudo o que o acaso
Da vida lhe oferecia.


Entardeceu. O sol se pôs dourado
Como belas Musas de um templo achado
Que ele mesmo encontrou.
Pensava ter, por fim, alcançado
A vida com que tanto sonhou.


Anoiteceu. As ruas desertificaram,
Os medos alastraram,
Os becos se multiplicaram,
Por pouco levando á demência o pobre homem.


Mas por outro lado...
A Lua era sua companheira de prata,
Contrastava com seus sonhos de lata
Sem sabor algum.


Achou-se reconfortado
Com o silêncio pela rua mostrado.
Sentimento comum.


Até que ao longe viu algo que o encantou:
Era uma das Musas com que tanto sonhou.
Trajada de escarlate, corria, assustada.
Ou seria só fachada?
Era, no entanto, feliz?


"Diz, diz!" gritou o viajante.
"Sou apenas um espirito errante",
Ripostou a Musa perdida,
Qual alma fugidia.


No horizonte, desapareceu.
A lua prateava o seu caminho
Como se a procurasse.


Ele a perdeu.

Ziguezagueando por grandes desertos,
Com os portões da tristeza abertos,
Reflecte no que não entendeu.


É outro dia.
Porém, ele caiu.
No chão apodrecia
Numa confusa sinestesia.

Raiva? Dor? Conforto?

Qual destes, entre tantos outros
Se adequa a um espirito morto?

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