A Cave

Author: Hugo Torres / Etiquetas:

Não me posso olhar, nem andar.
Só mesmo subir as escadas que descem à cave
e sonhar que o mundo não existe, e ver o espelho partido
que reflecte a alma mais escondida da consciência.
É lá que toco os sinos da catedral e me apaixono por ciganas,
onde não cresço, onde sonho e não cresço nunca,
e cresço como nunca, em ascensão celestial
num qualquer acto de recompensa,
onde os Homens são belos,
onde as flores nascem, crescem, morrem,
florescem ao lado das mortas que se mantêm de pé
como memórias do tempo,
onde o mofo me sufoca, o fumo me mata
enquanto contemplo um molde mais perfeito.
Na cave tudo se encontra, tudo se perde,
tudo se reencontra numa espiral de medos,
num simples olhar, numa aleatoriedade louca
como a escrita. As fadas não moram na cave
porque a cave é menor, doutro mundo,
ninguém mora na cave senão eu e o espelho
onde me reencontro para me relembrar
que o rés-do-chão é a maligna inspiração daquele vidro
do novamente, dos demónios da cave,
das fadas da cave, do espelho da cave,
da própria cave que sou eu.

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