A explosão da Dignidade

Author: Hugo Torres / Etiquetas:

Hoje lembrei-me de explodir. Rebentar a alma numa generalidade tosca e desprovida de qualquer sentido. Talvez o simples acto de palavrear por aqui seja já uma explosão e pêras.
Hoje lembrei-me do buraco feio onde estamos metidos. Da hipocrisia das pessoas que nos rodeiam. Da liberdade que nos tiram, que nunca tivemos. Não temos dignidade no mundo. Não a há. Muitos, as raríssimas excepções de 'merecedores' da dignidade, a um nível mais cimeiro e altivo, cujas características são igualmente homónimas às dos heróis locais, são aqueles que nos entorpecem com veneno, ou os que a recebem sob a forma de uma mentira ou um qualquer engodo interesseiro. E perseguir os nossos interesses é uma inteligente forma de sobrevivência social! De todo o modo, recebem-na as que nos embalam no que queremos ouvir, da forma que queremos ouvir, da forma que queremos ver e fazer o mundo, cuja NUNCA fazemos. E quando a fazemos, chegamos, rastejando, até ao nosso leito de morte e sussurramos, moribundos, que a nossa submissa vida de dedicação a algo místico que poderá vir ou não vir foi uma perda de tempo, deste tempo que é nosso por um qualquer acaso da física ou da química - provar do pouco que o mundo tem para nos dar seria uma melhor forma de emprestar uma existência à vida. Quem recebe dignidade são os que bradam, bradam aos céus, ladram aos céus o clímax da sua ignorância ou do seu não-faz mas afinal até é adepto disso. Pior - apontam o dedo aos seus caros camaradas de vida, quem sabe, camaradas de leito, camaradas de tudo e muito mais que tudo. São esses que têm a dignidade, porque escondem a sua realidade e lambem muito, e não só as botas daqueles que detêm o poder, esse conceito (antropológico?) que é o poder, neste caso, o poder da promoção, da dignidade, talvez da comunidade - do andar pelas ruas em alcateias, de preferência armados de poucas ideias, muitas misconcepções e uma arma ou outra, para intimidar os mais fracos, os seus iguais biológicos mais fracos. Viva a amplitude de pensamento, tão democrática que ela é. E como qualquer democracia, tem potencial para ser autofágica.
É aqui que se encontra a falta de dignidade. Daqueles que, de facto, a merecem. Daqueles que dão a cara, que dão o que lhes apetece, desde que não atinja o seu igual biológico, igual esse que alguns conhecem por irmão, mas deixemo-nos de coisas antigas e desactualizadas, essas leituras pesadas de derramamento de sangue que se perpétua pelo infinito, gerando parasitas que igualmente não merecem dignidade, mas têm-na toda, pelo simples facto de HIPOTETICAMENTE levarem a tal vida servil ou colocarem uma máscara de pureza e envergarem umas vestes demarcadoras. Enfim, cá estou a escrever quase que como a desculpar-me pela minha ou a existência de outros seres indignos e certamente indignados. Não são necessárias desculpas para viver, pois é um facto aleatório. Há muitos factos que são aleatórios, tal como a dignidade parece sê-lo. Dentro de um restrito poço de boçalidade, muitos são os seres que rastejam como vermes, festejam como vermes a sua boçalidade, fruto da democracia autofágica, ou o buraco feio onde estamos metidos. Desde o fala barato, o que diz tudo sobre tudo mas não sabe nada, o que não te dá palavra, não te deixa responder às questões, esse altivo mestre, por vezes muito militaresco, forte, cheio de ambição de luta contra tudo e todos, resultado da sua educação dura e espartana, provavelmente auto-induzida, à tua vizinha que apanhas a escutar à tua porta, à porta do teu pensamento, sim, essa que se veste de negro todos os dias pelo senhor e pelo Senhor (paz às suas almas), que aos Domingos não está claramente em casa porque foi tricotar com as suas iguais, ou irmãs, para o domo do Lorde. E que Lorde, o que matou, o que aponta o dedo ao teu colega de trabalho, que adora a sua mulher, ama os seus filhos e, nas horas vagas, quando não tem muito para fazer, ama ébriamente os filhos dos outros, na escuridão da noite para que toda a sua vida não caia nas ruas da amargura, tão deprimentes e tão fascinantes quanto as ruas que acolhem todos os seus actos do demónio que não são sequer confessados, apesar de este vizinho se trajar também de negro e espalhar, cheio de orgulho e dignidade, todo o esplendor do Santo Evangelho.

1 comentários:

Corvi Umbra disse...

A dignidade devora-nos. Somos feitos do nosso célebre veneno e vivemos a nossa imagem, o nosso tempo, o nosso cristal. Somos pequenos malfeitores que se julgam donos e senhores de espaço e de tempo e quando damos por nós estes já não existem. Vivemos numa selva em que não há vencedores nem vencidos. A selva come-nos a todos. Ela é mãe. Quem a criou não era veneno, era substância do veneno. Somos enredo nessa história e nada mais nos aguarda se não saber jogar com o pouco que temos.
A dignidade para mim é ser inteiro e moral. É ser compreensivo na sensibildade do inantigível do que é humano. É a pintura de um quadro abstracto, sim. É um fogo no qual só os fracos podem tocar.
Nesta sociedade o fogo é dos gatos e a cólera dos duques d'aço.